24.10.06

Para voltar a voar.


É quando acorda com lágrima nos olhos, que lembra das mágoas não vistas na correria do dia-a-dia.
A vida continua, ele pensa.
E como ave que se renova, pensa, que nessa condição, deve fazer isso periodicamente.
Fecha os olhos e respira amor. Essa sempre foi a melhor maneira para se encher de coragem.

20.10.06

Menino grande.

O menino de cabelo ruivo está procurando presente no armário.

- Se eu acertar você confirma?
- Não sei.

E ele tenta mesmo acertar. Finge que tá sem pressa de ganhar presente, mas até ouço a ansiedade dentro dele. É claro que faz parte do embrulho ganhar no jogo do adivinha.

Esse menino me inspira. Eu quero ser que nem ele quando crescer!

15.10.06

Em prosa, quase prosa.

Pensava na vida com forma de poesia mesmo antes de nascer, mas só escrevia em prosa. Era assim porque o texto em prosa segue como um rio. Não tem forma definida e nem rimas contidas, apenas palavras que soam bonito porque assim desejam.

De qualquer maneira, desejava escrever em versos. Jogou no chão diversos de seus escritos e leu que em língua diferente poderia conseguir. A língua portuguesa não era mesmo fácil. Ensaiou alguns acentos diferentes como quem conhece o desconhecido e não ouviu som dali porque não sabia se era o som correto.

Desistiu da poesia e escreveu em prosa. E escreveu em prosa com a ajuda dos fragmentos que outrora foram jogados no chão.

Continuava a pensar na vida com forma de poesia e escreveu.

11.10.06

A lata virou na minha cabeça.


Abri a caixa de correio e havia um cartão pra Mari. A Mari é a filha que adotei há quase cinco anos atrás. Não deveria ser nada demais ela ter recebido um cartão de aniversário do Pet Shop, se não fosse sua origem.

Engraçado o que a vida faz. Lembro da Mari sem nome, ao lado de uma caixa em dia de chuva. Mal lembro de seus carrapatos porque não fui eu quem os matou. Lembro dela mais magra, molhada e fedida com o olhar igual ao que tem agora.

A Mari subiu de vida. Corta as unhas com gente especializada, dorme na cama, ganha presente de aniversário, é mimada, usa xampu de boa qualidade e come ração das boas. Só não usa lacinho porque não tem pelo. Só não toma banho de ofurô porque não é palhaça, mas cadela.

Mas não é isso que é bonito. Mais do que uma mãe feliz por ter a Mari, sou uma mãe orgulhosa por ter um cachorro como filho. E quero mesmo ter filhos de verdade com algo parecido com ela: quero filhos vira-latas, amigos vira-latas, convívios vira-latas.

Eu quero ser, mesmo grande, uma vira-lata!

Em homenagem à mais uma lata virada da minha querida filhota. Parabéns, Mari!

9.10.06

Esperaria.

Acordou com luz no rosto em dia que chovia. Saltou da cama sem espreguiçar com olhos cheios de esperança - mesmo sem esperar por nada. Mudou a composição do texto quando ouviu a voz vinda do livro que lia. Esperou ser aplaudido. Sem assinaturas, esperou ser reconhecido pela dinâmica das palavras. Viveu o dia chuvoso com céu aberto. Chorou lágrimas de esperança. Pensou que não há o que esperar porque não se espera dos outros. Dormiu desejando acordar sozinho com a luz no rosto.

5.10.06

Avenida Brasil


Andando no lugar que não conhecia,vi Deus por todas as partes.
Sentada num bar ainda pela manhã. Na ida e na volta de ônibus. Na passarela feia. Nos rostos cheios de marca e mãos calejadas. No velhinho que me entregou um papel que dizia que Papai do Céu me carrega no colo. Ouvi hinos, preces e li diversas vezes que " tudo posso Naquele que me fortalece".

Fazia tempo que eu não vivia isso.

Fazia tempo que o lugar feio se enfeitava pra mim.

Faz tempo que eu não vejo o Brasil.

2.10.06

Andando.

E a gente continua a pensar na vida como se a morte não existisse.

Nas projeções do amanhã, só os sonhos têm espaço.

E no dia de hoje? As projeções do amanhã?

Tenho mais o que fazer. Sempre há o que fazer.

Hoje.

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