22.4.19

Eu resolvi escrever uma prosa inteira sobre o seu beijo, mas me perdi. É difícil traduzir em um texto claro, sem o acolchoado de uma rima, aquilo que mexe por dentro. Não sei lidar com essa força escancarada que me tira a razão e me rasga como aos meus rascunhos.
Nesse contexto, papel e tinteiro, escrivaninha de madeira e rascunhos pelo chão, o peito explodindo, as palavras nunca expressam, mas você vem. Suave, beija-me a testa e a ponta do nariz. Meus olhos fecham e eu vejo o seu cheiro. A boca entreaberta que espera até a caneta cair. Eu sou tão sua, apesar de não.
Volto a mim mesma e silencio como um dos meus rascunhos.
Não cabe em mim este texto sem língua que alcance o seu começo, seu meio e afins. Não cabe em mim este texto com a sua boca em quases.

Só te cabe a poesia
Da tua boca
Na minha rima
Que te alcança

Só a poesia traduz o ápice
De escrever um quase
Como quem dança

Só a poesia salva
Um amor que falta
Um destino insano

Só a poesia escoa
Sem travar no verbo
O que é incerto
E rima sem doer.

(Rebeca dos Anjos)

Nenhum comentário:

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...