5.8.16

Quem irá acreditar
Se eu disser que de outra vida lhe conheço,
E concedo-lhe o meu amor?

Que quando encarei seus olhos
Lembrei de tudo:
Seu jeito de andar, dormir e me olhar?

Pois eu reconheci, meu bem,
Eu sabia onde lhe reencontrar;
Chorei de saudade.

Eu chorei uma vida
Sabendo que existe outra

Eu ri da vida
Sabendo que somos outros,
Apesar de sermos os mesmos

Feitos de eternos detalhes.

(Rebeca dos Anjos)



30.7.16

Persisto sobre o tempo:

Um ponto sem nó,
Uma busca, talvez.

A vida tem passado tão rápido
E esfregado a morte na minha cara
E me lembrado que sou adulta
Apesar de disputar bolhas de sabão com o meu cão

E aí na "adulreza" a gente conhece tanta gente chata
E percebe que a alegria vai ficando cada vez mais escassa dentro das horas

Dá vontade de gritar pro mundo
Que o tempo é mais importante que o dinheiro,
Que a experiência é mais importante do que o erro
E que metas... meu Deus, que metas?

Quem cobrará essas merdas

Enquanto perdemos aquele tempo para brincar com o cachorro, com o filho,
Para ler um livro,
Conversar com um amigo,
Fazer as pazes com um inimigo,
Ou sentir um quadro,
Ou deixar o ponto passar pra música terminar?

Quem cobrará tudo isso?

O fim do tempo?


Rebeca dos Anjos

21.6.16

Rio 2016

Há  uma luta interna para que eu não me acostume:

Saio mais cedo
Morando perto
Para que o metrô parado não me atrase;

Peço licença no ônibus lotado
E agradeço;

Peço por favor
Não jogue lixo aí
Me dê aqui que eu jogo ali na lata.

Foco no amarelo do trem lotado
E fico surda diante da reclamação geral:

Respiro fundo
E agradeço

Respiro fundo
E agradeço

Respiro fundo
E agradeço

Por mais um dia de vida
Na cidade que mata um policial por dia
Por não ter sido assaltada hoje,
Pelo salário que chega atrasado,
Pela luta interna para que eu não me acostume:

Com toda essa lama de obras inacabadas,
Cheiros de esgoto e ruas não asfaltadas
Buracos no chão e rombo nos caixas

Agradeço por ainda pedir pelas vítimas dessa desordem
Por ainda me sobrar alguma sensibilidade,
Por parar, respirar, agradecer e fazer poesia,

Por torcer para que não dê merda nas Olimpíadas -

Com a benção de um Cristo Redentor.

(Rebeca dos Anjos)




31.5.16

Esperei um poema aparecer
Sem saber bem sobre sua primeira estrofe

Mas aí como pode?

Veio ele em terras planas,
O gado, as casas de pedra
Nas minhas lembranças:
O céu me escreveu, veja só!

Saudade!

Eu não sei bem porque,
Talvez tenha sido por querer,
Pousei minhas asas em terras montanhosas,
Calor que queima  minh'alma
Talvez só pra esse frio me confortar

Não sei bem porque
Mas estrangeira aqui não sou
Sinto-me em casa,
Vinhos e bordôs

E bossa que toca
Nessa carruagem

(Rebeca dos Anjos)

29.4.16

Eles não sabem.

Não conseguem enxergar um palmo à frente de suas regras,
Um palmo à frente de suas ambições
E não lembram que cada palmo à frente não visto
São comuns a todas as sepulturas.

Não entendem que a vida é mais do que isso:
Mais do que todos esses papéis timbrados,
Mais do que moedas rasgáveis,
Posições temporárias,
Mais do que discursos aprendidos em aulas -
A oratória nunca será mais intensa do que uma alma que grita.

Eles não sabem.
(Temo que eu também ainda não saiba por completo)

Só sei que aprendi,
A duras penas,
Flutuando pela vida,
Quanto estive lá, junto aos que não sabem conjugar os verbos,
Mas que sabem mais do que eu:

Tá certo aquilo que vale de exemplo para muitas gerações.

"- Seu filho se orgulharia disso, menina?"

(E no fundo todo mundo sabe o que deve ser exemplo, não é?)

Porque de transgressões o mundo tá cheio;
E mais vale fazer o bem aqui:

"Se não for pra melhorar,
Que seja pra nunca mais ter que voltar".


Rebeca dos Anjos

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