18.4.18

Sobre sentir na manhã urbana
O sol de outono queimando a pele
E entender que um raio também pode ser ar

Agradecer o cheiro de grama cortada
Que cria na cidade um grande quintal imaginário

Observo: ainda não há folhas secas no outono do Rio
Há flores ainda,
Um magenta desgastado,
Mas flor.

Passo como a moça de Monet passeia
Naqueles campos primaveris
E me assusto porque o cenário carioca
Me leva a essa tela com seus traços feito sonho

(Entro no metrô e suspendo a poesia)

As pessoas reclamam,
Mas dentre elas reconheço a senhora do livro que me traz as palavras
Tento olhar nos olhos dela,
Ela percebe, tira os óculos escuros,
Nos deixamos ver -

A poesia não cessa
Nem na cidade do caos,

A poesia resiste,
Se abaixo do Bem,
Acima do Mal.

(Rebeca dos Anjos)

10.4.18

Sobre o conhecer
A raiz quadrada
Como se escala
Como se fala
Em russo
Sobre a troca de fraldas
Em 1890.

Saber
De tudo um pouco
Um tanto é muito
Sobre o outro,
Sobre o mundo

Qualquer vírgula que acrescente
Qualquer ínfimo ponto
E talvez dois
Nesse talvez que nunca acaba
Esse não sei que nunca finda

Tudo isso é a vida,

8.3.18

Seremos lembradas hoje com rosas, galanteios e posts nas redes sociais. Falarão que somos lindas, que a vida é mais perfumada com a nossa presença, que embelezamos o mundo, que somos guerreiras.

Sim, somos tudo isso: lindas guerreiras cheirosas.

Mas somos mais: somos também a primeira fonte humana de amor no mundo. Não somos sozinhas responsáveis pela existência da humanidade e nem pela propagação do amor, é claro, mas todo mundo nasceu de alguém e esse alguém era uma mulher que carregou um ser humano que, ainda embrião, recebeu sua energia, de amor ou não. De segurança ou não. De autoconfiança ou não. De paz ou não. Entendem a dimensão disso?

Entendem a dimensão disso num mundo em que a mulheres ainda (pasmem!) tem que lutar para serem res-pei-ta-das?

Feliz dia das mulheres.

13.1.18

Eu era jovem
E planejava uma vida inteira
Mas entendi que não há força quando desejamos um caminho que não é nosso.

A cabeça planeja,
Mas se a chama não queima,
Tudo é em vão

Hoje sou menos jovem
Mas ainda não entendo porque passo tanto tempo pensando
Se, de última hora,
Jogo as agendas fora
E sigo o meu coração

(Relembro)

Deus ri de mim e me apoia
Porque a fé me controla
E, graças a Ele, nada está em minhas mãos.

17.10.17

Do puerpério

Não sobrou areia sobre areia
Do que eu era
O (a)mar levou

De um grão pari três vidas inteiras:
Eu,
Ela,
Elo.

Onde o Eu termina
Ela começa

O que o Eu termina
O Elo transforma

(...)

Erodimos
E somos rocha.

(Rebeca dos Anjos)

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