11.10.11

Bendito seja

Sentado no banco da praça, Benedito espera. Bloco do lado, alinhado com a coxa, lápis sem ponta. Não sei se observa o que vai dentro ou o que vai fora. Só que sei que só o que fala e mexe são os olhos marcados, enquadrados por rugas. Passam as crianças correndo, os casais que se amam, os casais que não se amam, os cachorros com seus donos, o lixeiro das três da tarde. Benedito espera até o momento em que o sol cai. Tento segui-lo, saber pra onde vai. De onde vem o Benedito?
No dia seguinte, às seis, está ele na praça outra vez. Benedito tempo presente no ontem e no hoje. Não aguento. Afasto o bloco, faço ponta no lápis e os afasto. Sento ao lado do velho, alinho as coxas pra saber se é alto ou baixo e o encaro:
- O senhor está esperando alguém?
- Não.
- Mas parece que o senhor espera algo. Posição, bloco em branco, lápis sem ponta, tempo, tudo faz parecer que o senhor espera algo. Nem se mexe no mesmo banco de sempre... Será que posso ajudar?
- Não, não preciso de ajuda alguma, obrigado.
Beijo sua bochecha e ele sorri.
Voltei para vê-lo, mas só havia o bloco e o lápis com ponta. Benedito virou passado e história. Nunca mais o vi.

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