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3.3.12

Desembaraço

Do bolo de lã que morava na altura do estômago
Foi feito cobertor
Com pontos de crochê
Aprendidos com a vovó.

Por dentro coberta
Angústia se vai
Quentinho é paz
Desfaz calafrios.


Rebeca dos Anjos

23.1.12

OceAMO




Dentro,
Oceano.

Repare:
Onda é mar
Mar não é onda.

O vento passa.
O (a)mar fica.

Rebeca dos Anjos





"Quando se estabelecem vínculos corretos com pessoas de valor, isso traz naturalmente uma certa perda. O homem deve afastar-se do que é inferior e superficial. Porém, em seu interior, ele está satisfeito por encontrar o que procurava e precisava para o desenvolvimento da sua personalidade. O importante é permanecer firme. Ele precisa saber o que quer, 
não permitindo que tendências momentâneas o desviem."  (I Ching - O  Livro das Mutações)          

16.1.12

Sobre plantar pés de estrelas laranjas

Fez força pra marcar passos na areia
Ai, ai
O mar levou...

Passos não nadam, meu bem
Na água não dançam
No mar salgado
Tudo acabou

A rocha é doce, eu acho.
A luta é doce, eu sei.

Quando subi
Sofri
Quase caí
Quase morri
Sobrevivi
Sem nem saber o porquê -
Eu segui, só segui
O impulso que ia do peito ao dedão

 

 Depois de tempos eu vi
Meus passos iguais a estrela laranja
Enorme sol
No alto
Bem alto
Na rocha
Banhado por mar
Pro doce salgar
De quando em vez





Passos na rocha
Que o mar não leva
Só(l) tempera
O eterno
Feito por pés

A muitos pés do chão
(Onde só chega quem voa)

Rebeca dos Anjos

10.1.12

Canção para o meu sono

Acordar às cinco   
Sentindo  o cinto               
Que aperta o sentido
De tudo que pode Ser

Levanto
Fazendo bico
Silêncio pesa
Perco tempo
Querendo o que não posso ter

Mais umas horas
Nos sonhos
No largo encontro
Capaz de desfazer o bico
Aliviando a face
Abrindo espaço
Pro sorriso acontecer


8.1.12

No agora





É melhor aqui:

Onde o vento me toca
Onde nada me importa
Onde estou consciente de mim


5.1.12

Um poema ruim

Aproveito a nuvem cinza
Para escrever um poema triste.
 
Nuvem cinza sem motivo
Que sei que passará
Enquanto não passa
Passaralho!
Quando passar,
Passarinho
Passa e rio
(Ha-ha-ha).
 
Tudo passa
Até a uva
(e não engorda)

Aproveito a nuvem cinza
Para escrever um poema ruim



Rebeca dos Anjos

2.1.12

O que me navega é amar



Sobre a dor da saudade de instantes, aquela que esmaga o peito nas despedidas, eu sei.

Assim eu faço: 
Cada porto um lar, um (a)mar.
Na saudade eu acho concha. 
De cada reencontro nasce uma pérola. 

(São preciosas, 
cada uma delas).




Rebeca dos Anjos

31.12.11

De todos os elementos



Já que me faltam água e ar
Vou me banhar
Fazer vapor
Pra chover na minha terra

(quem sabe venta?)

Rebeca dos Anjos

23.12.11

Sobre a mancha no banco amarelo do ônibus

Há uma história
Na mancha
Tijolo
Sangue
Sobre
Sol

Não se sabe o que ali houve
Dor
Pudor
Do invasor
Da cor

Não se sabe
Se foi de propósito
Qual a proposta
O sujeito
O objeto
Agente passivo
Ativo

Sujeira?
Rabisco?

Se não era nada
Agora é arte

Minha
(e sua)

Rebeca dos Anjos

21.12.11

Liberdade

 
Luto a boa luta
Vou de peito aberto
Aguardo os frutos
Criança
Caio e levanto
O que dói sempre sara
Com beijo, tempo ou dor
Não me importa
Tudo passa, tudo acaba
Eu permaneço leoa:
A vida recompensa quem acredita.



Rebeca dos Anjos

19.12.11

Ponto e vírgula

A distância entre dois pontos
Medida por uma reta
Com forma de curva
Curva os olhos ao horizonte
Grande
Claro
Imprevisível horizonte

A distância entre nós,
Dois pontos,
Prenúncio:

A distância entre nós
Dois pontos,
Divisão:

Dividimos o futuro anunciado para além da linha, curva do horizonte;





13.12.11

Movimento Antropofágico

Devoro a vida

Do sangue venenoso extraio a afirmação da minha verdade.
Não é o escuro que alimenta o claro?

O sentir o gosto elástico dos
Nervos
Compasso das
Fibrilações
Exercícios para o
Maxilar
Que sustenta minha apetitosa boca
(que eu mesma mordo, quase arranco, quando na desesperança de bocas melhores, que lançam hálitos frescos)
Não é fresca a verdade?

Fresca e amarga a verdade primitiva
Fresco e amargo ser primitivo
Fresco e amargo é ser

(O primeiro de tudo
É livre
Do contágio
Portanto, é)

Não permito que o invasor
Devorador como sou
Coloque sobre a minha face
A máscara que mascara
Sua boca com dentes frágeis
Consumidor de garfo e faca e liquidificador:
Educação para maxilares que desconhecem o bom devorar

Aprenda:

Antropofagicamente
Meto a cara
Enfio os dentes na vida
Me lambuzo
Do duro
Do mole
Do líquido
Das partes
Para ter a cara limpa
Boca aberta e exposta
Primitiva
Desprotegida
Sem máscaras
Boca que alimenta os pés
Que andam sem rumo
Para o progresso,
Este indigerível



Entenda:

Depois de engolir a vida
Talvez vomite
Ao menos
Palavras ímpares,
Minha própria vida





Rebeca dos Anjos

10.12.11

Alheio

É no momento em que não há alguém
Que o mundo é neutro
A solidão, abraço
A música brota
Invade
Como se eu estivesse de olhos fechados
Num todo com pupilas dilatadas

Prolongo a sensação
Apego-me ao chão
Frio
Como se fosse nuvem

O eu
Passageiro
Do que chamam
De mim

Rebeca dos Anjos

5.12.11

Estrutura

Busco a chave de fenda
Que encaixa na fenda
Do parafuso que aperta
O que vai perto e no peito
Seja lá o que for

Não sofro de parafuso a mais ou a menos
Sofro de aperto
E se isto é defeito
Que afrouxa o perfeito
Pode ser que parafuso sirva
Pra regular

Se o que me aperta
Às vezes sufoca
Também não solta
O que está no lugar
  
Qual deles?







1.12.11

Dos risos de rabo


Lá vem ela
E o rabo
Que ri
Que pede
Que ama
Que canta
Que fala


O ouvido atento
Que escuta
Aquilo
Que vai
(e vem)
Dentro de mim

Lá vem ela
Inquieta
Cheira
Procura
Faz charme
E lambe
A ponta do meu dedão


Soltinha
Vira-Lata
Toda dada
Quase abraça
Quem vai no elevador

E nesses dias
Bico meu
Vira focinho:

A Lata Vira
O meu coração

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